terça-feira, 5 de março de 2013

Breve ensaio sobre a cegueira




                                                                                                                                  Tumblr photo



      Quando a pessoa fica apaixonada, seu organismo produz grandes doses de dopamina, norepinefrina e feniletilamina. São anfetaminas naturais que provocam euforia e podem causar dependência. O amor é cientificamente explicável mesmo que haja incertezas no exercício de suas reações químicas. Ele é flexível, mas às vezes pode ser intolerante. Para a sociedade é só mais uma massa de modelar multiplamente manipulável. As pessoas sentem a necessidade de criar padrões para selecionar as espécies. Quando a contracultura disseminou o “faça você mesmo” todos pensavam ter atingido a liberdade plena, no entanto os jovens vestiram a militância como uma roupa da estação. Mais uma vez a mídia e seus veículos conseguiram explorar a indignação dos rebeldes e subvertê-los a uma simulação do exercício completo da expressão, dos sentimentos. Vieram os ídolos como espelhos convexos e côncavos e começaram a refletir as massas da forma que melhor garantisse o giro de seu capital doente. Quem pode afirmar que conhece a si mesmo? Que seu conhecimento sobre o amor não fora batizado como uma ciência curricular transmutável conforme a religião ou a cultura nacional. Quando se olha no espelho tem certeza de que é você ou simplesmente o que fizeram de você enquanto pensava estar desperto?  A beleza está em todas as formas esperando ser entendida.  Da mesma forma o amor não é camuflado por sua própria substância, mas pela influência do espaço sobre a nossa forma de enxergá-lo. As leis o endurecem e atrofiam como os pés de uma gueixa até o Século XX. Leis religiosas, leis socioeconômicas e culturais, leis comportamentais de limites e espaço e principalmente... A lei do orgulho e do egoísmo que nos faz traduzir nossas atividades seculares e espaço no mundo como algo que nos torna superiores aos outros.  Quando amamos perdemos muitas coisas, tralhas e bugigangas que entulham o terreno de nossas almas (consciência). Nenhuma semente germina sem condições favoráveis, em solo tóxico. No entanto quando permitimos ao outro anexar seu espaço ao nosso há mais probabilidade de haver um terreno fértil para produzir o alimento do coração. As pessoas rotulam de loucos os que fogem da regra comum, sou mesmo um indivíduo estranho, o estranho por sua vez não se explica, e eu não gosto mesmo de me encaixar em explicações, “outsider”. Não me aproprio dos outros nem de seus sentimentos, gosto de apreciar sua natureza, de me encaixar nela múltiplas vezes e depois recuar e deixá-las sentir sua liberdade. Erro fatal é estrangular os sentimentos dos outros como um pescoço de galinha e tomar seu sangue no molho, não me agrada ser um parasita. Quanto as reações químicas, elas são fato, não existe uma plataforma e nem cadeias comportamentais para que o amor surja. Ele não contamina como um vírus, ele apenas se instala como uma histeria independente de convivência ou distância. Independente de obstáculos quaisquer ou até mesmo de resistência. Ele produz vida e dependendo do contexto em que se insere, a morte. É simplesmente o fluxo incansável do éter que aspiramos desde que nascemos, mas que já estava aqui antes de nós e continua após a nossa partida.


(C. Mary Wilde)




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